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sexta-feira, 7 de março de 2014

Lucas Prado Kallas -TIPOS DE COPOS

Tal como existem milhares de marcas e centenas de estilos de cerveja, também existem várias dezenas, senão mesmo centenas de copos. De facto, consoante o tipo de cerveja que estamos a beber, deveremos escolher um copo adequado. Por vezes, tal tarefa torna-se fácil, já que as melhores cervejas costumam indicar no rótulo qual o copo que deverá ser utilizado. Independentemente dessa referência ser feita ou não, tentaremos fazer aqui uma breve análise dos diferentes copos existentes no mercado e para que estilo de cerveja são mais indicados. Há pessoas que consideram esta corrente como mais um golpe de marketing de certas empresas para vender mais produtos. Pensamos que tal não reflete a realidade. Apesar das razões comerciais que estão subjacentes a qualquer negócio, há realmente uma adequação do estilo de uma cerveja a um certo formato de copo. Por exemplo, é natural que as lagers sejam servidas em copos altos, por forma a que o gás e a espuma tenham possibilidade de crescer e mostrar todo o seu carácter. E a formação de espuma não é algo de somenos importância. Esta protege a cerveja da libertação de certos elementos essenciais que, não fora a sua existência, se perderiam no ar. Por outro lado, evita a entrada de ar na cerveja, algo que provocaria a oxidação desta e correspondente perda de qualidades.
Tendo isto em consideração, que estilo de copo utilizar? Bom, a resposta não é imediata e, em países como a Bélgica, tal torna-se verdadeiramente difícil. De facto, é habitual cada marca de cerveja ter o copo correspondente, o que faz com que existam centenas de copos  de centenas de marcas. Como se torna humanamente impossível possuirmos todos os copos, apresentaremos apenas alguns formatos genéricos que servirão para a maior parte das cervejas que se lhe possam deparar (clique na imagem para ver o copo em tamanho maior).

Caneca/Mug/Stein - Pesada, resistente, larga e com uma pega, as canecas são mundialmente conhecidas e utilizadas. Mais ou menos engraçadas, vêm numa multiplicidade de formas e feitios e são excelentes para fazer brindes! Podem ser de vidro, cerâmica ou metal, por vezes têm uma tampa e o seu sucesso deve-se à quantidade de bebida que podem conter. Ideais para cervejas do tipo American Amber Ale, Roggenbier, Sahti, Irish Red Ale, Scottish Ale, Bock, Doppelbock, German Classic Pilsner, Bohemian Pilsner.

Copo para Witbier/Weizen - Nada sabe melhor do que beber uma Witbier no respectivo copo! Feitos de vidro fino, extremamente elegantes e compridos, estas autênticas obras de arte permitem admirar as cores da cerveja e o topo possibilita uma correcta expansão e desenvolvimento da cremosa espuma. Em geral, suportam até 0,5 litros de cerveja. Poderá utilizá-los com cervejas do tipo Dunkel Weizen, Gose, Weizenbock ou Hefe Weizen.

Copo em cilindro/Stange - Bastante comuns, estes copos em cilindro são de origem germânica e utlizam-se com cervejas delicadas, já que possibilitam a ampliação dos aromas e sabores do malte e do lúpulo. Em Portugal, é habitual servirem-se imperiais neste tipo de copos, apesar destes não serem os mais correctos. O cilindro é adequado aos géneros: Rauchbier, Altbier, Kolsch, Lambic-Faro, Lambic-Unblended.

Snifter - Um pouco maiores mas mesmo assim similares aos nossos cálices de brandy ou conhaque, estes copos têm um formato que os tornam excelentes para capturar os aromas de cervejas fortes, já que ajudam na sua preservação. Utilizam-se com Eisbocks, Barley Wine, Old Ale e Russian Imperial Stout.

Flauta/Flute - Estamos mais habituados a utilizar os copos em formato de flauta para beber champanhe ou espumante. No entanto, há cervejas que se dão muito bem com o formato destes copos. A sua elegância e o facto de serem esguios, assegura que o gás não se dissipa com muita rapidez, permitindo igualmente observar a cor e o corpo da cerveja com grande nitidez. Utilizam-se com os géneros Vienna, Schwarzbier, Lambic-Fruit, lambic-Gueuze

Pint/Becker/Tumbler - Quase cilíndrico mas bem mais largo do que o stange, o pint é bastante utilizado na Inglaterra e na Alemanha, por permitir beber vários tipos de cerveja, em grandes quantidades e por ter um desenho universal, barato e que possibilita um fácil armazenamento. É indicado para cervejas do tipo Smoked, Marzen/Oktoberfest, Steam Beer, Malt Liquor, Winter Warmer, Bitter e Pumpkin Ale, entre outras.

Pilsner - O copo de pilsner é o habitual copo das nossas imperiais. Entre as formas de um cilindro e de um cone, a sua estrutura permite manter a cerveja viva, para além de possibilitar a formação de uma boa espuma. Em Portugal, estes copos têm pouco mais de 0,2 litros mas em certos países da Europa podem chegar até aos 0,4 litros, como por exemplo na Alemanha e República Checa. São bons para os estilos American Macro Lager, Happoshu, German Classic Pilsner, European Strong Lager e Witbier.

Cálice/Goblet - São, em geral, autênticas obras de arte, muitos deles com dourado no rebordo, as letras da marca gravadas no vidro, chegando ao ponto de alguns terem relevo. São especialmente desenhadas para permitirem a manutenção da espuma  e a possibilidade de se darem tragos avantajados. São perfeitos para as Abbey Dubbel, Abbey Triple, Belgian Strong Ale e Flemish Sour Ale

Tulipa/Tulip - Também já algo habituais no nosso país, os copos em formato de tulipa são muito elegantes e permitem suportar cervejas que produzam grandes quantidades de espuma. Bastante típicos da Bélgica, são ideais para os estilos Scotch Ale, Saison, Bière de Garde e Belgian Strong Ale.

As indicações que aqui damos não são algo de doutrinal e que se devam seguir cegamente. Há cervejas que se podem beber em dois ou três tipos de copos diferentes. Vejamos o caso de uma pilsner: tanto a poderemos beber numa caneca, como num copo de pilsner ou num copo cilíndrico. E, verdade seja dita, não se vai deixar de beber uma boa cerveja por não se ter o respectivo copo à mão. A ideia que gostaríamos de realçar é a de que existem copos específicos para os diferentes estilos de cerveja e se conseguirmos adequar um ao outro tanto melhor, já que a experiência ficará mais completa e enriquecedora.
Para além do tipo de copo, há outros aspectos que também se devem ter em consideração. Por exemplo, se lhe quiserem servir uma cerveja num copo gelado, recuse. O contacto entre a cerveja e o copo gelado irá provocar um processo de condensação, o que irá diluir a bebida enquanto que, ao mesmo tempo, se alterará a temperatura correcta a que a cerveja deve ser servida. Procure ainda lavar os seus copos à mão. Algumas máquinas de lavar louça deixam resíduo o que pode alterar o sabor e a espuma da cerveja. Tal ideia aplica-se também à secagem: é preferível deixar os copos secarem ao ar, pois os panos podem deixar partículas inconvenientes para a cerveja.
Finalmente, e caso tenha ficado curioso, aqui lhe deixamos alguns sites onde poderá adquirir, ou apenas admirar, copos e outros artefactos dedicados à nobre arte de beber cerveja.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

As escolas da cerveja



O consumo de cerveja é popular em todo o mundo, mas podemos dizer que existem basicamente quatro escolas de cervejas: a alemã, a inglesa, a belga e a americana.



A escola alemã, que envolve também Áustria e República Tcheca, apresenta como principais características a lealdade à cultura regional de seus estilos, pois cada cidade, até as mais pequenas, têm suas cervejarias, são mais de 5 mil marcas existentes.

Os estilos de cervejas mais comuns da escola alemã são German Pils, Bohemia Pils, Münchner Helles e Vienna Lager. Eles levam apenas os 4 ingredientes básicos da cerveja, que vão dar o aroma e sabor da bebida.

Já a escola inglesa, que engloba também a Escócia e Irlanda, se caracteriza pelo costume de confraternizar. Sair para beber com os amigos em um pub é um hábito frequente. Nesses locais, o maior consumo é das cervejas em barril, os estilos preferidos são as Porters e as Pale Ales, que são menos carbonatadas e, em consequência, têm menos espuma.

Seus principais estilos são a IPA (India Pale Ale), Old Ale, Scotch Ale, Stout, Irish Red Ale, todas cervejas de alta fermentação com notas aromáticas que vão das herbais dos lúpulos ingleses até o torrado e café das Stouts.

Os estilos da escola belga como Dubbel, Tripel, Quadrupel, tem como característica principal a explosão de aromas e sabores. As belgas são únicas! Muitas não têm um estilo definido, costumam realçar o malte ao lúpulo, tem o amargor em segundo plano, e é comum a adição de diversas especiarias, como casca de laranja, coentro e anis estrelado, entre outros. A escola belga tem inclusive as cervejas Trapistas (feitas em mosteiros por monges) e de Abadia, que normalmente têm mais de mil anos de tradição.

A mais nova de todas, a escola norte-americana, traz inovação e diversidade aos tradicionais estilos centenários europeus. Elas vão de um extremo ao outro, desde as light até as mais lupuladas do mundo. Outro fenômeno americano é o das microcervejarias: no início da década de 1990 eram apenas 290, hoje já somam quase 2.000 e cada uma imprime novidades e versões aos tradicionais estilos europeus.
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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Lucas Prado Kallas - Os segredos da cerveja belga


Famosa por seus chocolates e batatas fritas, Bélgica se destaca no mercado mundial de cerveja utilizando tradições medievais

fonte | A A A
Além de ter a reputação de produzir a melhor cerveja do mundo, a Bélgica também é o lar da maior cervejaria do mundo. A Anheuser-Busch (AB) InBev, sediada em Leuven, uma pequena cidade universitária nos arredores de Bruxelas, produz uma em cada cinco cervejas vendidas ao redor do mundo. Do outro lado da rua, a ultramoderna cervejaria da Stella Artois produz uma das marcas internacionais mais famosas da empresa. Suas impressionantes instalações ilustram a reverência que os belgas mantêm por sua cerveja.

popular do país. A variedade belga inclui uma enorme quantidade de cervejas de trigo, cervejas escuras, avermelhadas, composições regionais baseadas em antigas receitas, e as cervejas naturalmente fermentadas do Vale do Senne, um anacronismo que se manteve vivo apenas na Bélgica. O país, generosamente compartilha suas criações com o resto do mundo. Mais da metade da cerveja produzida na Bélgica é exportada para o resto do mundo.
Como uma nação que, exceto por seus mexilhões e suas batatas fritas, seu popular chocolate, e seus eurocratas (o Parlamento Europeu foi construído sobre uma antiga cervejaria de Bruxelas), teve pouco impacto no mundo, passou a dominar o mercado da cerveja? A resposta está na híbrida história e cultura dos belgas.
A cerveja é para a Bélgica o que o vinho é para a França. “É parte integrante da cultura local”, diz Marc Stroobandt, um especialista em cervejas belgas. Os belgas a produzem há muito tempo: diz-se que a cerveja chegou à região com o Império Romano, e muitas cervejarias belgas têm origem na Idade Média. A Stella Artois é originária da cervejaria Den Hoorn, fundada em Leuven em 1366, e o símbolo da antiga cervejaria até hoje permanece no rótulo da cerveja. Sebastian Artois levou o nome atual à cervejaria em 1717.
A geografia também ajudou. Uma região propícia para a produção da cerveja se estende pelo norte da Europa, onde é frio demais para o cultivo de uvas que possam ser transformadas em um vinho decente. Mas o clima e a terra são ideais para o cultivo de cevada e lúpulo, os ingredientes básicos da cerveja. A Bélgica também é conhecida por sua água de alta qualidade, vital para a produção de uma boa cerveja. Como destaca Sven Gatz, diretor da Federação Belga de Cervejarias, o fato do país ser um ponto de encontro entre as Europas latina e germânica, permitiu à Bélgica reunir influências de ambos os lados, e isso ainda pode ser sentido no sabor da cerveja local.
Ervas como coentro e alcaçuz, temperos como o gengibre, e frutas como cerejas e framboesas, que já foram populares entre os cervejeiros franceses, continuam a ser usadas na Bélgica, mesmo depois que o lúpulo ganhou espaço na produção, nas regiões onde a influência francesa é maior. A mistura de ervas e frutas, conhecida como gruyt, era dominada pelos monges, que vendiam cerveja para arcar com os custos de manutenção de suas abadias, e isso pode explicar porque o lúpulo foi considerado uma “fruta do diabo”, que “causava melancolia nos homens”. O lúpulo e o gruyt travaram uma intensa batalha de publicidade durante a Idade Média, e até o fim do século XIX, eram os monges que dominavam a arte e a tecnologia da fabricação da cerveja. A Reinheitsgebot, uma lei da Bavária de 1516, que bania qualquer ingrediente além de água, cevada e lúpulo nas cervejas explica porque as cervejas à base de lúpulo são mais populares nas regiões germânicas (e menos católicas) da Bélgica.
Logo, a turbulência histórica do país estimulou suas cervejarias. Em um ponto ou outro da história, a maioria dos grandes poderes da Europa controlou a Bélgica, deixando no país novas influências e sabores. Os holandeses, os últimos a ocuparem a Bélgica antes da Primeira Guerra Mundial, enviaram comerciantes às Índias em busca de novos temperos, e muitos deles acabaram sendo introduzidos nas cervejas belgas (um dos motivos para que os belgas expulsassem os holandeses e declarassem independência em 1830 foi sua oposição aos altos impostos cobrados sobre as cervejas).
Todos esses fatores encorajaram novas experiências. Além de ervas, temperos e lúpulo, outras substâncias estranhas como mostarda, café e chocolate também foram adicionadas à cerveja belga. Pete Brown, um escritor britânico especializado em cervejas, enxerga nas “estranhas e loucas” misturas das cervejarias belgas uma ligação com outro presente dos belgas ao mundo: o surrealismo.
Discussões nos bares belgas não têm como tema assuntos triviais como o futebol e a política. Os debates mais furiosos costumam discutir qual o copo certo para que uma Stella Artois seja servida, e garçons que se esqueçam de perguntar se você quer que sua garrafa de Duvel seja levemente agitada para que a levedura seja melhor misturada, não devem esperar gorjetas. Embora as cervejarias tenham muito a celebrar, a Bélgica como um todo permanece problemática. Entre as principais questões que assolam o país está a amarga divisão política entre a Valônia e Flandres, que deixaram a Bélgica sem um governo permanente durante a maior parte de 2011 e 2012. Uma dissolução do país já não parece mais algo impossível. Ainda assim, se os belgas precisarem afogar suas mágoas, eles ao menos têm uma enorme variedade de cervejas para escolher.
Fontes: The Economist - Brewed force